CD – REGGAE FAVELA PERIFERIA – 2002

CD – Reggae Favela Periferia

            O reggae mineiro está passando por um momento de efervescência, conquistando o seu espaço no concorrido cenário musical do estado e do país. É justamente com o novo trabalho do pioneiro do reggae em Minas Gerais, Celso Moretti, que o ritmo nascido na Jamaica se apresenta mais próximo da nossa cultura e da nossa gente. Reggae Favela Periferia é um álbum que não procura imitar o estilo jamaicano, mas sim construir uma linguagem própria, baseada no Reggae Favela. Desde 1984, quando fundou com seus companheiros a já desfeita banda Nego Gato, Celso Moretti vem desenvolvendo e depurando o seu som até o formato maduro que pode ser agora ouvido e sentido.

 O CD Faixa a Faixa     

            As doze faixas deste segundo CD mostram uma preocupação em retratar a vida dos que se encontram longe demais dos centros de decisão, apresentando-a de forma leve, mas contundente. O olhar de Moretti capta as cenas do dia-a-dia, a fala popular e os sons da periferia, traduzindo toda essa riqueza cultural em um trabalho de grande diversidade. No entanto o álbum preserva uma unidade formal clara dentro do reggae roots, fruto de uma proposta consistente e um trabalho bem elaborado de produção, a cargo de Juliano Mourão, vocalista da banda Omeriah, estreando como produtor musical.

            “Santo de Casa” já abre o CD com uma participação de peso: o cantor e guitarrista Sideral, solando o seu instrumento na cadência do blues, casando bem com o lamento expresso na canção. “Farol da Barra” é uma suave declaração de amor, dando voz ao “arquipélago de sentimentos” que Moretti nutre por sua mãe e companheira, a favela. A verdade que educa e não merece castigo é o tema de “Dito e Feito”. “Água” narra, de forma bem-humorada, uma singela história do cotidiano, mas que faz um poderoso alerta ambiental ao mesmo tempo em que critica a sociedade de consumo.

            “Capitão-Mor” mostra a tradição do congado em toda a sua vitalidade e o ritmo puro do afoxé marca a levada de “Faca na Mão”. “Marley” faz uma sentida homenagem ao grande nome do reggae. Segundo Moretti, uma de suas maiores influências, juntamente com nomes como Luiz Melodia, Gilberto Gil e Itamar Assumpção.

            Os personagens da favela aparecem explicitamente, como em “Primo José”, ou através dos ditos populares, que o cantor e compositor comenta em “Há males que vêm pra bem”. Fiel ao seu princípio de incorporar a cultura das favelas na sua música, Moretti convidou dois grupos de rap de Betim-MG, Raça DMC’s e Resistência, para apresentarem a sua visão de mundo. O primeiro ajuda a valorizar o crucial trabalho dos pedreiros em “Primo José” e o segundo cantando sobre integridade e ética em “Dito e Feito”.

            “Favela Negra (De Zé Keti a Moretti)” se diferencia por ser um poderoso manifesto em forma de poesia dub (um estilo que apresenta textos poéticos sobre um instrumental reggae) de autoria do historiador e ativista do movimento negro Marcos Antônio Cardoso, que também o declama. Ele conta tudo o que está na base das situações cantadas no álbum, explica a origem da palavra favela e chama os marginalizados para “retomar o passado e rebater, repercutir no tambor” e “sair de cima do muro”, para que o respeito da sociedade seja conquistado integralmente. “Moretês” finaliza o trabalho com uma amostra da “língua” inventada pelo cantor, à maneira do “scat singing” jazzístico, misturando a sonoridade do inglês com o burburinho das vielas e becos das favelas.

            Celso Moretti é acompanhado pela afiada banda Barraco de Aluguel, formada por Gê Rodrigues (guitarras), Luiz Paulo (bateria), Rodrigo Lourenço (baixo), Maicom Oliveira (guitarras), Walner L. Casitta (teclados) e Érica Viana (backing vocal). O álbum também traz a participação dos cantores Dudu Mendes e Dóris, do percussionista Magrão e das crianças Luana Guedes, Jéssica Letícia, Artur e Tainah Rodrigues.

            Reggae Favela Periferia é, ao mesmo tempo, uma representação do cotidiano, um manifesto de peso e um poema musical melodioso e sincopado. É certamente uma grande obra do reggae nacional.

Por Leo Vidigal /2002