CD – CABEÇA CORAÇÃO – 2005

CABEÇA CORAÇAO
Por: Noxa Alvarenga

Em uma tarde no ano de 2005, Celso Moretti revirando seus troços no meio de muita papelada; recortes de revistas, revistas antigas, jornais, caixas de papelão, etc. no seu quartinho separado da casa, que ele batizou de “Laboratório” se deparou com suas composições espalhadas, escritas em papel ofício e em pedaços de papeis de todos os tipos, como: guardanapos de mesas de botecos, folhas de agendas, maços de cigarros, folhas de cadernos, pedaços de páginas de revistas, e muitos outros. Era dia de limpeza e organização do local, Celso Moretti refletiu diante de suas composições “Se eu morresse agora, depois de ter gravado três CDs, feito mais algumas coisas por aí, amanhã ou um outro dia qualquer iria aparecer alguém aqui em casa interessado em pesquisar o que eu andava fazendo em termos de música, minha companheira iria pegar este calhamaço de papéis e dizer que isso tudo é letra de música. Aí o pesquisador perguntaria pra ela se todas as letras eram musicadas, com certeza ela responderia que achava que sim, então o indivíduo pediria a ela para cantarolar alguma e ela provavelmente não saberia, aí o gaiato ia tentar colocar uma melodia naquela letra e eu iria ficar puto lá em cima”.
Foi a partir desta reflexão que Celso Moretti resolveu partir para um registro (gravação) de todas as suas músicas (que passam de 500), com um único objetivo de ficar para a história.
Conversou com um amigo (Juliano Mourão) que se prontificou em ajudá-lo oferecendo seu equipamento para as gravações, agendaram e Celso Moretti foi à sua casa com aproximadamente vinte letras, pegadas aleatoriamente no seu “Laboratório”. Iniciaram as gravações, com Moretti empunhando seu violão e dedilhando acordes mal tocados e abrindo a garganta e “mandando ver” em plena produção. Já tinha gravado oito músicas quando o telefone do Juliano tocou e a gravação tinha que ser interrompida.
Naquela época, Celso Moretti vinha tendo um problema nas cordas vocais, que coincidentemente agravou e teve que se afastar da música por nove meses para tratamento. Juliano Mourão pediu para que um amigo portador entregasse um CD com as oito músicas gravadas para Celso Moretti. O amigo portador tirou uma cópia do CD antes de entregá-lo, e passou a ouvir no seu computador onde trabalha, um outro amigo interessou e ele copiou e assim foram tiradas várias outras cópias e espalhadas por vários lugares. Moretti passou a receber elogios por aquele trabalho e resolveu efetivá-lo como CD de carreira, com o título de “Cabeça / Coração”.
Foi um ato de coragem deste músico inovador chamado Celso Moretti.
Coragem e audácia, pois a gravação é tosca e os erros de execução do instrumento e vocais são evidentes.
Qualquer um outro músico não faria o mesmo.
Feito a cirurgia. Passou o tempo e os problemas nas cordas vocais foram amainados e Celso rejeitou o convite de melhorar a gravação e optou de fato em mantê-la, dizendo que ali estava gravada sua maior verdade musical, e que as pessoas teriam que conhecê-lo nu e cru de cabeça à coração.