Biografia

Nascido em São João Del Rei (MG) em 1954 e criado a partir dos sete anos de idade na já extinta favela Vila Nova Brasília, em Contagem, Celso Moretti traz consigo uma linguagem e trejeitos favelísticos das décadas de 60 e 70 (época em que morou na favela), período que marcou profundamente a sua vida e trajetória musical. Músico autodidata, Moretti teve seu primeiro registro musical realizado em 1980. Tendo como principais influências músicos como Luis Melodia, Marku Ribas, Itamar Assumpção e Bob Marley, iniciou em 1984, sua carreira no Reggae como compositor e vocalista da banda NÊGO GATO, considerada a primeira banda de Reggae do estado de Minas Gerais.

Celso Moretti é morador de Betim (Região Metropolitana de Belo Horizonte) desde 1987, já se considera da cidade. Cidade que divulga por onde passa.

Criador do “Reggae Favela” gênero musical oriundo do reggae jamaicano com misturas de outros sons que Moretti aprecia. Pioneiro do reggae em Minas Gerais/1984, hoje a maior referência do gênero no Estado. De 1991 a 1995, retirado na zona rural do município de Betim (MG), estudou e pesquisou intensamente a música reggae. O resultado foi a criação de mais uma derivação do Reggae Jamaicano, denominada REGGAE FAVELA que deu título ao seu primeiro CD, gravado de forma independente e a base de muito sacrifício e ajuda de amigos. Suas músicas apontam as desigualdades sociais vividas e convividas na favela, e em cenas do nosso cotidiano. Outro diferencial é a forma muito peculiar de colocar as palavras.

Celso Moretti tem uma maneira singular de interpretação, fato que caracteriza de forma determinante a proposta do Reggae Favela. Em seus shows o público fica extasiado com as evocações energéticas/performáticas e com o seu linguajar peculiar, o “morettês” que é uma constante em suas apresentações.

Celso Moretti não faz música de entretenimento, ele diz que faz música com postura de construção de uma sociedade mais igualitária e menos violenta, música de despertar a consciência adormecida e sonolenta. É uma oportunidade de conhecer o som desse veterano músico mineiro que já vendeu quase dez mil cópias do seu penúltimo CD – Reggae Favela Periferia por este Brasil afora. O penúltimo CD– Reggae Favela Brasil, está na mesma perspectiva. Cd ESTILINGUE em lançamento.

Ele considera sua música ainda como alternativa, considerando o que a mídia divulga como música. Sua música não toca em rádio devido seu modelo e sua forma, mas ele acredita que as emissoras de rádio um dia vão se curvar ao Reggae Favela.

A MÚSICA PARA MIM

A música para mim é um viés, é um canal que me permite comunicar com o desconhecido, de me apresentar ao desconhecido sem pudor e sem bobeira. A música é a senhora que sempre vou está pedindo desculpas, perdões e licenças por usá-la, às vezes, com despreparo e ignorância. Eu percebo, às vezes, que a música me agradece também; por não usá-la para atender minhas vaidades pessoais e nem para exigir que o meu canto seja a verdade absoluta que deve ser ecoado e/ou cantarolado por aí, se isso acontecer que seja por vias naturais de comunhão de idéias.

Não saio de casa para um show pensando em fazer a platéia cantar comigo as músicas do meu repertório, nem se eu vou sair bonito nas fotografias, nem quantos autógrafos vou dar depois do show e nem quantas mulheres vou beijar devido à exuberância do status de ser um cantor/artista. Essa promiscuidade não mora dentro de mim, não tenho a necessidade de usar a música como veículo que motivam às fantasias, ao estrelismo e a ribalta. Ao contrário disso tudo eu penso. Poderia eu; compor canções de letras e melodias de fácil assimilação e aceitação e subordina-las a mídia, me maquiar o suficiente para não deixar a mostra as minhas rugas e cabelos brancos conquistados com o tempo, e cantar de boca fechada tomando o cuidado necessário para que as pessoas não percebam as minhas obturações e toda minha restaurada arcada dentária.

O que eu espero da música não é nada. Eu não espero nada. Eu não fico esperando e nem tenho esperança.

Eu labuto.

Eu tenho é pretensões e objetivos.

Como disse em outra oportunidade “eu canto aquilo que acho interessante para mim, eu componho dentro daquilo que acredito, com responsabilidade, porque uma frase pode mudar um estado de espírito e provocar outro”.

“Quem canta seus males espantam.” Às vezes, espantam comigo, devido à mostra e exposição das minhas verdades, que a cada dia vai ficando mais destacadas num mundo que valoriza a mentira e a fantasia e consome música como se fosse papel higiênico ou frauda descartável; depois do uso joga-se fora, ou ainda, como fogos de artifícios; estoura e acaba-se.

A mentira passa, estoura e vai. A verdade fica, se aloja e permanece.

O palco para mim é um divã da psicanálise, que me obriga a auto-declaração. Lá eu me desnudo, fico por inteiro (com zoom), as minhas verdades me cobrem todinho não deixando nenhuma ponta de unha pra fora. Lá eu desrespeito a normalização musical e contraponho com o clássico e a padronização popular. Lá fica mais evidente o que eu espero, o porquê deste meu movimento calado e estático e lá também mostra as minhas fraquezas, mazelas e o meu despreparo. Despreparado é o estágio que sempre vou estar, juntamente com a minha ignorância, os dois andam de mãos dadas ao meu redor, devido eu acreditar que quando a pessoa se dá conta de que é preparado e que sabe de tudo, perde a essência da luta e da vibração.

Celso Moretti Julho/2006